Médica intensivista relata desafios vividos em 1 ano de pandemia: “Medo de não acabar”

A profissional atua desde o início da pandemia no Hospital Regional do Baixo Amazonas, em Santarém

(12/03/2021) – Ao som da frequência de batimentos cardíacos dos pacientes nos leitos e com olhar atento a cada um deles, através da parede de vidro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Adulto, a médica intensivista, Lívia Corrêa de Castro, falou sobre sua atuação neste primeiro ano de pandemia.

Vindo de uma longa jornada de plantão no dia anterior, a médica da Pró-Saúde e com atuação no Hospital Regional do Baixo Amazonas (HRBA), parou suas atividades por alguns minutos para destacar os principais desafios vividos, antes de iniciar a visita médica do dia.

Com atuação há 12 anos no HRBA, unidade mantida pelo Governo do Pará, no município de Santarém, Lívia conta que os profissionais não imaginavam iniciar o ano de 2021 de um jeito tão difícil quanto foi o ano anterior.

“Nessa segunda onda temos recebido pacientes mais graves, com um número maior de pacientes adoecendo. Classifico essa segunda onda bem pior do que a primeira, apesar de termos a experiência de um ano atrás, a gente ainda tem muitas batalhas dentro da UTI. É uma batalha pessoal porque trabalhamos com o cansaço, indo ao nosso extremo”, compartilha.

Medo do desconhecido

Há um ano, no dia 11 de março de 2020, A Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou oficialmente a pandemia da Covid-19, doença causada pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2). No Brasil, a primeira morte devido ao vírus aconteceu um dia depois do anúncio da OMS.

A intensivista comenta que quando os primeiros casos começaram a chegar à unidade, que é referência para tratamento da Covid-19, apesar dos treinamentos prévios, as equipes não sabiam o que iriam enfrentar na prática.

“No início a gente tinha muito medo de se contaminar, medo de sair na escala do plantão, medo de levar a doença para nossa família em casa”, explica.

Medos que permanecem até hoje, mas que não são maiores que um único sentimento: “Medo de não acabar, parece que não vai acabar nunca. A gente não para de receber paciente. A impressão que temos é que não está acabando e que estamos lutando contra um inimigo invencível”, afirma a médica.

Desrespeito da população x famílias desmoronadas

Nestes 12 meses de enfrentamento à pandemia, Lívia relata que as jornadas de plantão na UTI têm sido longas.

Ela conta que diversas vezes, ao sair do hospital, se deparou com pessoas aglomeradas nas ruas, sem máscaras de proteção, marcando encontros e até festas clandestinas e diz ter a sensação de que a população vive em um mundo paralelo, longe do mundo que enfrenta uma pandemia global.

“Vivemos uma realidade no hospital onde vemos famílias se desmontando, pessoas morrendo, apesar de todo o nosso esforço. E quando a gente sai na rua, percebe que as pessoas não têm noção da gravidade do que a gente vive hoje”, comenta.

A profissional menciona, inclusive, problemas entre os parentes. “Eu já tive várias discussões com minha própria família, porque percebo que não entendem o que está acontecendo e a gente tenta levar isso para nossa casa, mas realmente quem está fora do ambiente de UTI não tem noção do que esse vírus causa nas pessoas.”

A médica reforça que é um vírus extremamente letal para quem precisa internar num leito de UTI. “É muito triste vermos a rua lotada, gente marcando festa, ficamos nos sentindo um extraterrestre no meio de tudo isso. Parece que nosso trabalho é todo em vão.”

Vidas perdidas

O Brasil ultrapassou a marca de 270 mil pessoas mortas pela Covid-19.

Emocionada e emocionando os colegas da UTI que à assistiam falar, a médica destacou o sentimento dos profissionais da saúde, quando ocorre a perda de um paciente.

“A gente se sente derrotado. É um sentimento de impotência gigante que faz a gente pensar se quer continuar nessa vida, sabe? Então é muito ruim viver isso. Toda a equipe sofre, é bem complicado”, relata.

Lívia alerta a população que o vírus veio para ficar, e que é necessário a população aprender a conviver com ele, se protegendo. Para que isso ocorra, a profissional chama atenção para a mudança de comportamento de todos.

“A gente entende que está todo mundo cansado do vírus, da pandemia, mas é preciso entender que há uma nova rotina de uso da máscara, álcool em gel, manter o distanciamento físico. É uma doença devastadora e essa devastação não ocorre só na vida dos doentes, mas na vida da equipe de saúde que cuida de todos”, conclui.

Vitórias dos pacientes

O HRBA é uma unidade estratégica do Governo do Pará, gerenciado pela Pró-Saúde, que presta atendimento 100% gratuito a uma população de 1,3 milhão de pessoas residentes em 30 municípios do Oeste do Pará.

A unidade, que recebeu o primeiro paciente suspeito no dia 19 de março de 2020, realizou em 1 ano de pandemia diversas mudanças estruturais, para atender casos da doença.

“Na primeira fase abrimos 52 leitos para Covid-19. Neste segundo momento, a unidade passou a oferecer 96 leitos, fez adequações para atender os pacientes de outras especialidades, aumentou a capacidade de disponibilização de oxigênio, contratou mais de 200 novos profissionais, entre outras ações, em busca de prestar assistência de qualidade”, destaca Hebert Moreschi, diretor Hospitalar do HRBA.

400 altas de recuperados

O Regional do Baixo Amazonas já realizou 2.567 notificações no protocolo de Covid-19, efetivando 1.108 internações. Nesta quinta-feira, 11/3, alcançou a marca de 400 altas de pacientes recuperados da Covid-19.

O empresário Eliésio Gama foi o primeiro paciente recuperado da doença a receber alta médica no HRBA. Com 50% de comprometimento pulmonar, ele passou 12 dias internado.

“Lembro quando estava saindo do hospital, todos com medo. Que bom seria se tivessem continuado com medo, que provavelmente hoje não estaria como está. Se puder, fique em casa, não aglomere e evitem esse vírus”, alertou.

O número de paciente recuperados tem como um dos principais fatores o empenho contínuo da equipe multiprofissional que está na linha de frente de combate à doença.

“São médicos, enfermeiros, técnicos em enfermagem, fisioterapeutas e auxiliares de higiene e limpeza que fazem plantões diários levando assistência segura aos internados. Profissionais que trabalham incansavelmente, com agilidade e competência sempre com foco na resolutividade e humanização. Juntos, cremos que dias melhores virão, com a sensibilização de todos”, conclui Moreschi.